domingo

Troca de livros na 2a Jornada Cidadã do dia 15 de novembro de 2008

Entre Palavras é uma entidade autônoma, sem fins lucrativos, que tem por objetivo promover atividades culturais na região do grande ABC. Idealizada pelos escritores Vinícius Canhoto, Fábio M. Assumpção, Hildebrando Pafundi e Vanessa Molnar, realizou as oficinas Imagem da Imagem, Imagem da Memória e Conto e Contraponto em parceria com o Espaço Troca-Livro e A Semana de Cultura do ABC – Rebeldes e Malditos, provocando reflexões, debates e experimentos sobre o que e dos que são considerados rebeldes e malditos, nas várias linguagens artísticas e culturais.

Email: epalavras@gmail.com

quarta-feira

O desafio

O desafio imposto pelas condições históricas (sociais e econômicas) e pelo imaginário político (fortemente conservador), exigem que em cada campo de atividade governamental fossem realizados três trabalhos simultâneos: a mudança na mentalidade dos servidores públicos municipais, a definição de prioridades voltadas para as carências e demandas das classes populares e a invenção de uma nova cultura política.

Do ponto de vista administrativo, trata-se de fazer com que os servidores públicos se considerem cidadãos a serviço de outros cidadãos, em lugar de funcionários do aparelho estatal. Em outras palavras, trata-se de quebrar o poderio burocrático, fundado na hierarquia, no segredo do cargo e na rotina, isto é, em práticas antidemocráticas, uma vez que a democracia funda-se na igualdade (contra a hierarquia), no direito à informação (contra o segredo) e na invenção de novos direitos segundo novas circunstâncias (contra a rotina).

Do ponto de vista das prioridades, trata-se de definir políticas públicas para as áreas de saúde, moradia, educação, transporte, alimentação, cultura e direitos das minorias, numa cidade que passa por uma mudança profunda, pois começa a deixar de ser um centro industrial para tornar-se um centro de serviços.

Do ponto de vista da cultura política, tratava-se de estimular formas de auto-organização da sociedade e sobretudo das camadas populares, criando o sentimento e a prática da cidadania participativa. (...)

(retirado do texto Cultura política e política Cultural
de Marilena Chauí para a cidade de São Paulo)

terça-feira

Tira de estréia de Calvin & Haroldo, publicada nos EUA em 18 de Novembro de 1985

quinta-feira

Luís XIV para prefeito

por Letícia tralalá
''O status sou eu''

Ele ressurge das cinzas assim como a Fênix, emerge do profundo das catacumbas e abandona os ares tórridos do inferno para glorificar a cidade com sua ilustre candidatura (de que pura só o significado de cândido mesmo), e ele não vem sozinho, porque já que era para se livrar de um, ''não custava nada levar também o Sarney'', é o que afirma o próprio Belzebu! “Os subversivos que não subvertam mais, e os pobres que se calem diante de minha nobreza!” É o que afirma Luís XIV.

Questionado sobre seus grandes planos para a cidade, Luís XIV pretere. Nunca, jamais, em tempo nenhum concede entrevistas, só permite fotos de seu perfil direito ''meu melhor ângulo" e só fala por meio de seus assessores. Mas apesar de toda hostilidade ainda lhe resta um pouco de ternura, pede para adicioná-lo no orkut, e ele só adiciona com scrap, é bom lembrar!Sarney, coitado, aqui, o grande imperador ditatório é apenas uma figura apagada diante da protuberância das luxuosas perucas e calças colan, sua presença no governo de Luís XIV se resume em escrever todos os programas de governo do tal candidato. Exímio escritor, enfim, agora pode se gabar de ser útil para alguma coisa, embora sinta falta do inferno. E aqui vai uma demonstração do que o grande imperador das terras do Maranhão consegue fazer com sua grande arte, a escrita. ''Parfas ou por nefas'' é o que diz a declaração redigida por Sarney, começando com uma citação de Nietzsche que diz “A independência é o privilégio dos fortes” e com “há algo de podre no reino do ABC”, com isso sustenta a postura do mandato de Luís XIV na mais absoluta democracia, onde quem pode fala, e quem não pode escuta.

Os liberais, as putas, os artistas e os conselhos de fracos e oprimidos que se conformem, não haverá lutas de classes já que os pobres concordaram ser uma grande bobagem lutar pelo que nunca lhes pertenceu. O dinheiro é coisa material, é o que diz o Jesus.

Ressaltando, após tomada a posse, Luís pretende concentrar toda a atenção e o dinheiro da cidade em um único objetivo, a construção do palácio de "Merdalhes'', na praça do Carmo onde hoje se situa a Casa da Palavra. Alegria cidadãos! Está por vir o maior absolutismo que a cidade já viu. Para comemorar, preparem o proseco e a guilhotina, é a festa da democracia!

segunda-feira

Se a alma é pequena, tudo vale a pena?

por Pâmela Peixoto
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Estamos tentando entender, subverter o estado de nossas mentes. Precários de sentimentos, estamos vivendo a escassez numa crise mundial, somos agora muito mais máquina do que homem.

Este panorama tão intrigante, tão meticuloso, tão abstrato, um contexto que ultrapassa idéias freudianas, e nos leva ao mais elevado grau de loucura. Freud não explica. Não possuímos nenhuma ordem, moral, regra, somos tão pequenos, e quase que grãos de areia neste imenso universo. Não compreendemos os porquês, as histórias (científicas, bíblicas), nossas almas estão gastas, nossas mentes cegas e atoladas na mentira.

A alma está perdida em algum canto gregoriano; enterrada em algum túmulo egípcio; a alma foi-se embora com as rosas no inverno. Porque não somos alma de sentimentos, somos almas de negócios.

sexta-feira


Ao Mindinho (2)

por Jô Barranova
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Venha sim, Mindinho, mas não precisa trazer o vinho, eu passo um café. Recebi o convite, mas não garanto que vá ao encontro contigo. Lidar com esses burocratas da cultura é algo que azeda a gente. Dão as cartas, andando de nariz pra cima, senhores consagrados da cultura de coisa alguma. E nós? Inimigos de nós mesmos, porque não temos mais um inimigo general armado contra quem nos mobilizarmos, e nos perdemos, nos rendemos à economia que dita tudo, que controla tudo, que nos mantém reféns, porque aceitamos, incondicionalmente, aceitamos. Lidar com esses burocratas é algo que enjoa a gente. No último encontro, me disseram que se terminasse a faculdade, entenderia muito mais de cultura e do ponto de vista deles. E penso, Mindinho, que se terminasse a Agronomia, entenderia muito mais de cavalo, vaca, anta, até de ameba. E que, de certa forma, eles têm razão. Não vou, ando calejada. A cada encontro político cultural, uma castração e vou indo cada dia mais eunuco. Parei de escrever, desisto, tudo que posso na literatura se resume a este texto pobre de email que te mando uma vez por semana em resposta aos teus e voltei com a vodka, embora agora só tome Ice. Hoje está com cara de chuva, lavando roupa neste setembro chuvoso, sei que vão demorar a secar. Você perguntou do meu cão. Não agüentava mais as merdas de todas as manhãs de frio, coloquei o cachorro no carro e o larguei numa rua próxima ao metrô. Ele me persegue nos pesadelos, no batente vazio da cozinha, no quintal com cheiro de pinho. Já voltei oito vezes pra procurar o Boris e não encontrei. Talvez tenha morrido de frio, talvez tenha encontrado uma cadela no cio e picado a mula sem nem mesmo se lembrar da dona que age por impulso e não pensa nos dias de terapia necessários pra dar conta de toda cagada pós-moderna-contemporânea. Ontem não trabalhei, saí pra fotografar uma apresentação de cultura popular, à procura de outros cantos, de outros pensamentos e procurei não pensar no Boris, mas quando o maracatu passou pra me salvar, a bateria da máquina acabou. O evento estava quase vazio, o maracatu passou quase sozinho e tive muito tempo pra pensar novamente nessa cultura medíocre, nessa gente que não fuma, não bebe, não trepa e vive engessado, empacando todo processo legítimo de se fazer cultura. Repensei essa vida em que não se tem tempo de limpar a bosta do seu cão, de passar a mão nos seus pêlos e reclamar porque fedem, imaginando que o show que ele daria pra tomar banho consumiria todo o resto de energia do seu dia. E hoje, o vizinho toca um sertanejo brega. Pensando bem, Mindinho, traga o vinho. E meus amigos literatos da Augusta continuam dizendo que tudo vai melhorar depois das eleições. Pensando melhor, traga dois.