por Jô Barranova
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Venha sim, Mindinho, mas não precisa trazer o vinho, eu passo um café. Recebi o convite, mas não garanto que vá ao encontro contigo. Lidar com esses burocratas da cultura é algo que azeda a gente. Dão as cartas, andando de nariz pra cima, senhores consagrados da cultura de coisa alguma. E nós? Inimigos de nós mesmos, porque não temos mais um inimigo general armado contra quem nos mobilizarmos, e nos perdemos, nos rendemos à economia que dita tudo, que controla tudo, que nos mantém reféns, porque aceitamos, incondicionalmente, aceitamos. Lidar com esses burocratas é algo que enjoa a gente. No último encontro, me disseram que se terminasse a faculdade, entenderia muito mais de cultura e do ponto de vista deles. E penso, Mindinho, que se terminasse a Agronomia, entenderia muito mais de cavalo, vaca, anta, até de ameba. E que, de certa forma, eles têm razão. Não vou, ando calejada. A cada encontro político cultural, uma castração e vou indo cada dia mais eunuco. Parei de escrever, desisto, tudo que posso na literatura se resume a este texto pobre de email que te mando uma vez por semana em resposta aos teus e voltei com a vodka, embora agora só tome Ice. Hoje está com cara de chuva, lavando roupa neste setembro chuvoso, sei que vão demorar a secar. Você perguntou do meu cão. Não agüentava mais as merdas de todas as manhãs de frio, coloquei o cachorro no carro e o larguei numa rua próxima ao metrô. Ele me persegue nos pesadelos, no batente vazio da cozinha, no quintal com cheiro de pinho. Já voltei oito vezes pra procurar o Boris e não encontrei. Talvez tenha morrido de frio, talvez tenha encontrado uma cadela no cio e picado a mula sem nem mesmo se lembrar da dona que age por impulso e não pensa nos dias de terapia necessários pra dar conta de toda cagada pós-moderna-contemporânea. Ontem não trabalhei, saí pra fotografar uma apresentação de cultura popular, à procura de outros cantos, de outros pensamentos e procurei não pensar no Boris, mas quando o maracatu passou pra me salvar, a bateria da máquina acabou. O evento estava quase vazio, o maracatu passou quase sozinho e tive muito tempo pra pensar novamente nessa cultura medíocre, nessa gente que não fuma, não bebe, não trepa e vive engessado, empacando todo processo legítimo de se fazer cultura. Repensei essa vida em que não se tem tempo de limpar a bosta do seu cão, de passar a mão nos seus pêlos e reclamar porque fedem, imaginando que o show que ele daria pra tomar banho consumiria todo o resto de energia do seu dia. E hoje, o vizinho toca um sertanejo brega. Pensando bem, Mindinho, traga o vinho. E meus amigos literatos da Augusta continuam dizendo que tudo vai melhorar depois das eleições. Pensando melhor, traga dois.